Ex-ministro entrega carta de demissão a Temer

Marcos Pereira deixou o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços dia 3 de janeiro após entregar sua carta de demissão ao presidente da República, Michel Temer. No mesmo dia, ele publicou a íntegra do texto com uma mensagem nas suas redes sociais:

“Caros amigos, colegas do PRB, povo brasileiro: entreguei hoje ao presidente Michel Temer meu pedido de demissão do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços. Cumpri com muita dedicação esta missão que me honrou muito. Abaixo segue a íntegra da carta. Obrigado a todos os secretários, servidores e amigos que fiz no MDIC nestes 21 meses. Saio satisfeito e feliz”, escreveu.

Leia a carta:

Brasília, 03 de janeiro de 2018

Ref.: Pedido de Exoneração

Senhor Presidente Michel Temer:

Em maio de 2016, decidi contra a vontade de alguns conselheiros que deveria aceitar seu convite para assumir o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços. As manchetes, os artigos e a opinião corrente era a de que “um pastor” não teria condições de exercer destacada função, mas os avanços nestes 20 meses de trabalho incansável provaram que o problema no Brasil não é a fé das pessoas públicas, que é de foro íntimo, mas a vontade de cada uma para servir e realizar.

Assumimos um governo falido, despedaçado, com todos os índices econômicos negativos e sem perspectiva de melhora a vista. Com coragem enfrentamos os desafios que foram impostos e hoje podemos observar um País que encontrou seu curso novamente – apesar das dificuldades políticas vivenciadas.

No MDIC não fiz grandes mudanças estruturais para acomodar aliados. Antes, priorizei os bravos servidores desta carreira admirável. Como condição, pedi pragmatismo, celeridade e proatividade, e estou feliz porque seguiram à risca o comando.

Embora não tenha sido possível entregar ao País, por fatores alheios à nossa vontade, uma política automotiva compatível com a grandeza e a importância desta cadeia produtiva, que emprega 1,6 milhão de pessoas, destaco uma pequena parte das realizações, que seguem:

1 – Reposicionamento Internacional: com esforço hercúleo estive em 15 países e participei de todos os eventos econômicos relevantes para mostrar um Brasil em recuperação. Atraímos novamente a atenção do mundo e expandimos as fronteiras do mercado internacional;

2 – Brasil e Argentina: renovamos para cinco anos o acordo bilateral automotivo com a Argentina que vinha sendo postergado anualmente – 50% das nossas exportações de veículos vão para lá. Fortalecemos os laços com nosso principal parceiro na América do Sul, o terceiro no geral, e hoje estamos ainda mais perto de convergir com nossos mercados;

3 – Mercosul: por sugestão minha, criamos o encontro permanente de ministros de Comércio do Mercosul, dispositivo inédito no bloco, que revigorou nossa intenção de facilitar, ampliar e solidificar o mercado comum;

4 – Mercosul e União Europeia: estamos muito próximos de concretizar o acordo de livre comércio entre os dois blocos. Na Argentina, em dezembro, demos o passo mais significativo nesta negociação que se arrasta há 17 anos;

5 – Desburocratização: está em pleno funcionamento o módulo exportação do Portal Único de Comércio Exterior e logo estará implementada a função importação. É a principal entre as 47 medidas que identificamos e trabalhamos na melhoria do ambiente de negócios, dentro do sistema MDIC;

6 – Brasil Mais Produtivo: lancei em 15 estados o programa B+P que atenderá ao final 3 mil pequenas e médias empresas. Na média, alcançamos 52% de ganho de produtividade. Em 2018, ele será expandido;

7 – Instituto de Patentes: convocamos 210 novos examinadores de patentes e marcas, assinamos acordos importantes com outros países e estamos perto de uma solução para o backlog. Firmamos uma parceria pela qual a ABDI injetará R$ 45 milhões para modernizar hardwares e softwares do INPI, que permitirá aprimorar processos;

8 – Nova ABDI: a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial tem nova sede, com economia de R$ 1,6 milhão por ano, lançou o maior programa para conectar startups e indústrias e hoje é uma referência em inteligência a serviço do País;

9 – Indústria 4.0: desenvolvemos a política para a indústria de manufatura avançada para modernizar o parque industrial brasileiro, que será apresentada ao País em março próximo, durante a realização do Fórum Econômico Mundial – América Latina, em Sao Paulo. Estive em Israel e no Vale do Silício (EUA) buscando as melhores referências do setor;

10 – Fórum Econômico no Brasil: pela aproximação e amizade construídas, fui o responsável por articular o retorno do Fórum Econômico Mundial – América Latina ao País, em março de 2018. Estive pessoalmente com o professor Klaus Schwab algumas vezes e reforcei a importância.

A balança comercial bateu dois recordes seguidos em 2016 e 2017, com saldos de US$ 47,7 bilhões e US$ 67 bilhões, respectivamente, e a indústria está retomando sua capacidade instalada de produção, gerando novos empregos e novos investimentos.

Atuei muito próximo do setor produtivo, das entidades representativas, atendi a cada um, do maior ao menor empresário, em mais de 1500 audiências. Não há emprego sem empresas fortes, bem tratadas, que possam continuar gerando riquezas. Se o Estado não atrapalhar, já ajuda. E o melhor programa social é o emprego.

Cruzei o Brasil lançando os programas e levei a mensagem de que nosso País é maior e mais vigoroso que os problemas. Eu e o meu partido, o PRB, apoiamos as reformas e continuaremos apoiando tudo aquilo que for bom para o País.

Senhor Presidente, agradeço imensamente a confiança, fico lisonjeado pelo convite para continuar no cargo até 31 de dezembro, porém preciso deixar o ministério para poder me dedicar a questões partidárias e pessoais.

Eu me orgulho de ter feito parte do seu governo, governo este que o tempo e a história tratarão de reconhecer como fundamental para a modernização do Brasil.

Popularidade não quer dizer absolutamente nada. Como disse Confúcio, “o homem de palavra fácil e personalidade agradável raras vezes é homem de bem”. Há muitos por aí que comovem multidões, mas a exemplo do conto “O Flautista de Hamelin”, encantam e arrastam milhares para o abismo.

Espero ter honrado o setor produtivo brasileiro, o meu partido, o PRB – desde a Executiva Nacional, a bancada federal, as bancadas estaduais até cada um dos filiados do nosso imenso Brasil – e aos meus colegas ministros. Despeço-me.

Com todo acatamento, peço que aceite meu pedido de exoneração do cargo de Ministro de Estado.

Sem mais, do seu amigo

Marcos Pereira